RESGATE À HISTÓRIA DOS PIONEIROS DE PORTO GRANDE

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Imagem: AssComPMPG

Eu amo Porto Grande e peço sempre a Deus pelos munícipes e pelas autoridades de Porto Grande”. (Everaldo da Silva Vasconcelos, 2018)

O resgate sobre a história dos pioneiros do município de Porto Grande é uma preocupação do Prefeito José Maria Bessa.

Em registro à memória desde os tempos dos primeiros agentes distritais até os dias atuais, a Prefeitura Municipal de Porto Grande abre uma série de documentários biográficos para mostrar um pouco a história de homens e mulheres que em muito contribuíram para o desenvolvimento e engrandecimento de nossa querida cidade.

Começamos contando um pouco sobre a vida do nosso primeiro personagem – Everaldo da Silva Vasconcelos, brasileiro, 88 anos, nascido em 17 de dezembro de 1929. Teve 15 filhos, 86 netos, 36 bisnetos e 2 tataranetos. Seu Vasconcelos, chegou em Porto Grande, no ano de 1950. Natural da cidade de Belém, ainda jovem trabalhou como impressor gráfico, porém, logo saiu da imprensa para servir ao Exército Brasileiro. Contudo, o sonho desse guerreiro que viria a ser portograndense era maior! Após sua dispensa do serviço militar, passou a trabalhar como produtor de cinema. Seus pais, Mauricio Leite Vasconcelos e Perciliana Silva de Vasconcelos, ambos naturais de Belém do Pará, tinham planos de mandá-lo para o Estado do Rio de Janeiro com o intuito de estudar e morar com familiares. Após conseguir uma passagem aérea num avião da Fab, o destino viria a mudar o curso da vida deste homem. Certo de ir para o Rio de Janeiro, no dia de seu embarque, seu Vasconcelos teve a curiosidade de comprar um jornal, e numa página estampada, ali constava a entrevista do então governador do Território do Amapá, Janary Nunes, que relatava construção de uma estrada de ferro para retirada de manganês e a construção de uma hidrelétrica na região.

Essa reportagem no jornal teria sido o sinal da mudança de sua história, tanto que durante o voo, Vasconcelos decidiu mudar seu destino; resolveu desembarcar no Amapá.

Aterrissou em Macapá, num dia de sábado de aleluia, em 13 de abril de 1950. Com as palavras do próprio Vasconcelos, acompanhemos um pouco o relato de sua história referente à sua chegada ao Amapá.

“Quando eu cheguei em Macapá não tinha nada. Aquilo que o governador estava falando era tudo projeto. Ainda não tinha começado o trabalho da Icomi; ainda não tinha começado o trabalho da hidrelétrica Coaraci Nunes; e eu aluguei um quarto no edifício Lacerda. Dividi o quarto com o Avertino Ramos e mais outro jogador que tinha vindo de Belém, que jogava no Paysandu, chamado ‘Roxinho’ e o Aristeu Alciole Ramos, irmão do Avertino Ramos; E eu passei quase um mês procurando emprego, e o dinheiro que eu trouxe estava acabando, e num belo dia enquanto eu passava em frente à igreja São José (do outro lado ficava o palácio do governo onde hoje tem uma biblioteca; ali por trás de onde é o teatro das bacabeiras), ouvi uma pessoa chamando pelo meu nome de guerra que era ‘Vasconcelos’. Eu olhei; era um policial da Guarda Territorial. Ele perguntou o que eu fazia. Eu respondi que estava atrás de emprego e que não havia conseguido nada. Ele disse: – Olha o governador dá audiência…tu queres, eu ponho o teu nome na lista para audiência com o governador…. porque o único lugar que tem agora é a polícia. Estão recrutando pessoal para polícia.

                Às 15:00 horas eu fui lá na audiência com o Janary Nunes. Ele perguntou o que eu queria, e eu disse que tinha visto uma entrevista dele em Belém e tinha vindo atrás de emprego e não consegui nada. Aí ele perguntou “pra” mim: – Você quer entrar pra Guarda Territorial? Não tinha opção – eu só falei “pra” ele: – É, vou trocar a verde pela amarela! (a guarda territorial usava uniforme caqui). Ele perguntou se eu era reservista… (o governador era capitão). Eu respondi que sim, era reservista da Primeira Categoria. E ele bateu numa campa, chamou o secretário e mandou aplicar uma prova “pra” saber meu grau de instrução. Eu fiz a prova. Uma prova de segundo grau. Eu fiz 8.6. O governador mandou um ofício “pro” secretário de segurança, nessa época era o Manoel Cancela Alves. Eu entreguei “pra” ele. Ele leu e colocou na gaveta e disse: – Não tem vaga! Quando tiver eu mando lhe avisar…

                Eu voltei lá no palácio e falei com o meu amigo que serviu comigo no quartel em Belém e estava na guarda já (Celino Mendes Ferreira) … ele disse: – Eu vou te levar lá com o governador de novo. Contei a história “pro” governador… ele me disse: – Volte lá com o secretário e diga à ele que eu estou mandando-lhe apresentar pra guarda territorial… não estou procurando saber se tem vaga. E eu voltei. Ele nem abriu a gaveta “pra” ver o oficio de novo. Só mandou fazer o oficio pra eu entregar na fortaleza.

                O quartel era na fortaleza e eu fiquei morando lá durante quatro anos. Saí da fortaleza quando arrumei família. Nesse meio, eu fui designado a vir pra Porto Grande, em 1953. Vim na condição de comissariado da Guarda Territorial. A construção da estrada de ferro já tinha sido iniciada”.

Numa entrevista concedida à assessoria de comunicação da Prefeitura Municipal de Porto Grande, Seu Vasconcelos relatou:

Obs.: as perguntas foram feitas pela assessoria e respondidas pelo sr. Vasconcelos.

  1. Como era o município de Porto Grande na época de sua vinda?

          “Quando cheguei em Porto Grande existiam poucos moradores aqui. Eu cheguei no ano de 1953, quando começou a construção da estrada de ferro para a Serra do Navio. Então todas as embarcações que levavam material para Serra do Navio, saíam de onde tem uma castanheira à beira do Rio Araguari, próximo onde morava o já falecido Gerino Porto. Aproveitava-se o período da cheia do rio para levar os materiais pois não existiam ainda, nem a Perimetral Norte e nem a Estrada de Ferro. Tudo subia através de balsas e também tinha lanchas velozes que levavam os engenheiros (a chefia) para Serra do Navio. Para se chegar de Macapá à Porto Grande, somente por meio de estrada de chão com muitas dificuldades. No inverno era atoleiros, no verão era ‘costela de vaca’ e então a viagem de Macapá à Porto Grande durava em média de duas horas e meia a três horas. Hoje é possível se chegar até em uma hora. Onde hoje é o escritório da CEA, ficava um motor de luz que funcionava de seis horas até dez horas da noite. Hoje quando falta energia à noite, eu me lembro dos tempos passados, quando se usava lamparina e velas. Hoje nós temos três hidrelétricas no Rio Araguari e toda semana temos falta de energia… enquanto os outros lá pra fora estão usufruindo das hidrelétricas do rio Araguari, e os municípios como Ferreira Gomes e Porto Grande vivem padecendo com falta de energia constantemente”.

  1. O senhor viu o início das primeiras construções públicas na cidade?

          ”Ali onde é a escola Acre era a residência do telegrafista. Em frente funcionava um posto médico. Depois passou a funcionar uma biblioteca e hoje funciona ali a Secretaria de Saúde. Não existia praça. A primeira praça, que tem de fronte da delegacia, foi construída por Anibal Barcellos, bem como a maioria dos prédios públicos: Quartel da PM, Delegacia de Polícia. Na época que eu cheguei aqui era uma escola rural ao lado da casa do telegrafista onde hoje é a escola Acre”.

  1. Quem eram os agentes distritais?

”Os primeiros agentes distritais eram os comissários (que não era delegacia, era comissariado). Por exemplo, eu fui agente distrital antes do Manoel Mareco, porque eram os comissários que eram os agentes distritais”.

  1. O senhor chegou a ser delegado de polícia em Porto Grande?

“Sim. Fui nomeado, já pelo Anibal Barcellos”.

  1. Por quanto tempo o senhor exerceu o oficio de delegado de polícia?

“Como delegado exerci 4 anos. Me aposentei da polícia em 1985”.

  1. O senhor participou da primeira eleição para prefeito de Porto Grande. Qual foi sua contribuição nesse período da história do nosso município?

         ”Participei. Eu trabalhei os quatro anos com o Elias Trajano. Primeiro eu fui designado para Chefe de Seção de Arrecadação. Depois eu fui Secretário de Obras, e depois fui Secretário de Finanças”.

  1. O senhor é autor da bandeira e do brasão do município de Porto Grande?

          “Sim. Sou autor da bandeira e do brasão do município de Porto Grande e na época foi apresentado também um hino, mas como foi o único hino apresentado, e era um concurso, o hino não foi aceito”.

  1. Como o senhor vê o município de Porto Grande hoje? Qual a sua expectativa?

”Pelo que eu vi no passado e pelo o que estou vendo agora no presente, de primeiro, em uma viagem de Macapa à Porto Grande, não se encontrava um ou dois carros na viagem, hoje tem centenas de carros trafegando na rodovia”.

Seu Vasconcelos contou ainda que em 1957, o presidente da república Juscelino Kubistchek veio inaugurar as instalações ICOMI em Serra do Navio.  Então, ele e sua equipe fizeram a escolta do presidente JK até serra do navio. – “Foram 4 policiais sob o meu comando. Era eu, Mamed Amaral da Silva, Expedito Leão Viana e Raimundo Keroga. Fomos acompanhando o presidente da república. Porque eles tinham a segurança deles, mas eles não conheciam a região. Naquela época não existia colete à prova de bala. Nós não tínhamos nem arma! Então a nossa missão, se por ventura acontecesse algum ataque, era lançar o presidente no chão e se jogar sobre ele. A segurança dele era que tinha arma pra agir. No retorno da Serra do Navio, Juscelino desembarcou no Porto Platon e foi de carro pra Macapá. Na oportunidade, ele agradeceu e, segurando a minha mão, disse o seguinte: -‘Vocês são uns heróis! Eu estou construindo a capital da república no planalto central e vocês estão construindo um futuro Estado na selva amazônica’. O presidente já previa que num futuro próximo, o então Território se tornaria um Estado.

  1. Que mensagem o senhor deixaria hoje para os munícipes de Porto Grande?

   ”A mensagem para os munícipes é que nunca desistam. Pense em Deus, porque com Deus tudo é possível. Orar sempre por nossa nação! Seja honesto; seja fiel, que nós possamos ter uma família unida. Se eu vim pra Porto Grande foi o destino que me trouxe, sem conhecer ninguém, hoje eu tenho uma família numerosa, 15 filhos. Eu tenho uma segunda esposa. Faleceu a primeira. Hoje tô com 86 netos, 36 bisnetos e 2 tataranetos. Então, eu não pretendo voltar pra Belém para ser sepultado, porque a palavra de Deus diz que o melhor lugar pra você viver é onde você gosta de viver, então eu gosto de Porto Grande! Eu amo Porto Grande e peço sempre a Deus pelos munícipes e pelas autoridades de Porto Grande”.

Por: AssComPMPG